terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Iraque é aqui


Rio de Janeiro, 28 de junho de 2007. A cidade se prepara para receber os XV Jogos Pan-Americanos, a violência é uma preocupação... especialmente em função dos jogos. Terminou neste dia mais uma mega-operação, a maior até então, no Complexo do Alemão, reunindo 1.350 policiais, entre civis, militares e soldados da Força Nacional. De acordo com dados oficias, pelo menos 44 pessoas foram mortas pela polícia na região desde 2 de maio de 2007, data em que o Complexo foi cercado pela polícia. Sendo 19 mortos (três menores de idade) e treze pessoas feridas - entre elas uma estudante que estava na escola e uma criança - somente no dia 27 de junho.


"Tenho Vocação para ser guerreiro e meu sonho é ir para o Iraque" (O GLOBO, 29/06/2007)


Apesar dos mortos e feridos, representantes do governo do Estado afirmaram que a operação tinha sido um sucesso e que seria um modelo para futuras ações. O Globo, em seu editorial “Vitória Policial” (29/06/2007) afirmou que “não há registro de uma operação policial no Rio de tamanha dimensão e com resultados a primeira vista tão positivos”. Já na capa do jornal (acima) estavam duas fotos do inspetor de polícia civil Leonardo da Silva Torres, conhecido como “Trovão”, alçado à condição de herói. Segundo o texto, Torres “tem tudo para se tornar o símbolo de uma guerra não convencional...”


Já os corpos aos pés do Inspetor não apareceram na capa do Globo:


Denúncias recebidas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) indicavam que pelo menos 11 mortos na operação policial no Complexo do Alemão seriam moradores sem qualquer ligação com o tráfico de drogas. Após inúmeras acusações de execuções sumárias realizadas pelas forças policiais, o então presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, João Tancredo, classificou a ação como “um massacre de civis”. Tancredo disse ainda que, entre os três menores mortos no dia 27 de junho, estaria um deficiente físico, morto a facadas: “a polícia alega que o menino estava carregando uma arma, mas isso não seria possível porque ele possui uma deficiência no braço.”

Em outubro daquale ano (2007), relatório feito por peritos forenses designados pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, comprovou que “houve execuções sumárias e arbitrárias na operação”. De acordo com o documento, das 19 pessoas mortas na operação do dia 27 de junho, 14 foram baleadas na parte superior do corpo. Em média, cada pessoa morta levou 3,84 tiros - algumas foram atingidas por disparos saídos de mais de uma arma. Conforme os peritos, dos 70 tiros que atingiram os 19 mortos, 54 foram dados em partes mortais do corpo.

Apesar da dificuldade de se obter mais dados, foram constatados tiros à queima roupa e pelas costas, disparados de cima para baixo, em regiões como cabeça e nuca. Em pelo menos dois casos, os laudos puderam comprovar que houve execução: “as vítimas foram atingidas primeiro por um tiro no crânio, de trás pra frente, e depois por um tiro de frente pra trás - um no tórax, outro na face”.

Philip Alston, relator da ONU especializado em execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias, visitou o complexo do alemão no final de 2007 e declarou que a polícia não apresentou nenhum argumento plausível para a realização da operação, e que esta teria sido feita com argumentos políticos. "Na realidade, do ponto de vista de controle do crime, a operação foi um fracasso. (...) o número de pessoas mortas foi superior ao de armas apreendidas."

 


Em novembro de 2010, mais uma vez, a polícia invade o complexo do alemão, agora com 2.600 agentes. Apesar das denúncias de crimes e abusos cometidos por equipes policiais – “...casos concretos de tortura, ameaça de morte, invasão de domicílio, injúria, corrupção, roubo, extorsão e humilhação. (...) relatos que apontam para casos de execução não registrados, ocultação de cadáveres e desaparecimento.” - a “vitória das forças do bem” é amplamente elogiada e plenamente endossada por toda grande mídia, enquanto que as denuncias são deixadas de lado. Afinal, agora (como em 2007?) as favelas da Penha estariam finalmente libertadas.

Alguns meses depois, o inspetor Torres vai parar novamente nas manchetes dos jornais. Desta vez por chefiar uma quadrilha de policiais que revendia – para traficantes – armas e drogas apreendidas em operações policiais. De acordo com relatório da Policia Federal (Operação Guilhotina), o bando do inspetor Torres teria participado também da “garimpagem” (como os próprios policiais falavam) durante a (última) operação no Complexo do Alemão, onde teriam “encontrado” R$ 2 milhões de reais.

Segundo denúncias de moradores e organizações de direitos humanos, a garimpagem no Alemão foi uma espécie de caça ao tesouro, em que policiais de diferentes batalhões e delegacias, se revezavam em busca de dinheiro, jóias, drogas e armas que criminosos teriam deixado para trás na fuga, e depois partilhavam entre eles as partes valiosas do "tesouro". Aproveitando-se do clima de “pente fino”, os agentes invadiam repetidamente casas de moradores, praticavam extorsão, roubando pequenas quantias, telefones celulares, câmeras digitais e outros objetos de algum valor.

No filme "Três Reis" (Three Kings, 1999), quatro soldados americanos no Iraque tentam roubar um tesouro (o “ouro de Saddam”) em meio à Guerra do Golfo. Em 2007, o inspetor Torres tinha uma farda particular – a mesma usada pelos marines americanos no filme – e também um sonho: “ir para o Iraque”.  Parece que ele conseguiu realizá-lo.

Rio de Janeiro, verão de 2011. A cidade se prepara para receber a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016...




Por Antonio Bastos, membro do Movimento "Direito Para Quem?"

2 comentários:

Luiz Otávio Ribas disse...

Gostei muito deste resgate sobre os principais acontecimentos históricos ligados a crescente violência do Estado nas favelas!

Diogo Flora disse...

Muito bom o artigo. Conseguiu mostrar a realidade por tras da maquiagem midiatica e seus argumentos toscos. Como em 2007, a recente operacao nao sera solucao nenhuma para os problemas que enfrentamos na cidade do rio.